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Wednesday, 3 December 2014

Exterminador implacável

por JOÃO CÉSAR DAS NEVES

A humanidade enfrenta uma terrível doença, endémica e mortal. Felizmente surgiu agora no mercado um poderoso medicamento que, se usado com regularidade, garante não a cura, mas importantes melhorias. A maleita é muito pior do que o ébola, o cancro ou diarreia: orgulho.

Todos sabemos como na vida pessoal, profissional, política e diplomática a soberba gera zangas, conflitos e angústias. Por vezes os sintomas são evidentes, mas apenas aos circuns-tantes, pois quanto mais alguém está infectado, mais cego fica ao seu mal. É óbvia para todos a arrogância de Angela Merkel, Ricardo Salgado, da sogra metediça ou do chefe incompetente. Para todos, menos para o próprio, que se considera sempre razoável e injustiçado. Tal como os críticos de Merkel e Salgado, genros e subordinados que, julgando-se justificados pelos defeitos que criticam, são tanto ou mais presunçosos ao fazê-lo. O amor-próprio está sempre presente, mesmo se escondido como raiz venenosa. A maleita é de tal modo virulenta, que chega a infectar através da própria vacina: muitos somos orgulhosos da falta de orgulho, gabando-nos da nossa enorme humildade.

Há milénios a sabedoria identificou a sobranceria como o pior dos pecados, fonte de todos os outros. Na tradição cristã, por exemplo, é este o pecado de Satanás e também de Adão e Eva. São Tomás de Aquino explica: "A soberba encerra a gravidade máxima, pois nos outros pecados o homem afasta-se de Deus por ignorância, fraqueza ou busca de outro bem, enquanto a soberba se afasta de Deus precisamente por não se querer submeter a Ele e à sua lei (...) Segue-se que a soberba é, em si mesma, o mais grave dos pecados, enquanto a todos supera pela aversão, elemento formal do pecado" (Summa Theologiae II-II 162, 6).

Ligado ao pecado original, todos os seres humanos estão contagiados pelo vírus, recebendo-o no sangue. E, como a diabetes ou a malária, a soberba nunca é totalmente debelada, mantendo-se latente para sempre no quotidiano dos infectados: a única alternativa é ir gerindo o mal com fármacos. Como o quinino na malária ou a insulina na diabetes, apenas uma droga pode controlar o orgulho: humildade. Consequentemente, apenas para ir sobrevivendo, toda a gente precisa de doses contínuas e regulares de humildade. E até nos casos raríssimos que a medicina declarou curados, o tratamento deixa múltiplas sequelas, como vaidades, pedantismos e outras síndromes menores e anexas.

As terapêuticas disponíveis são múltiplas e eficazes e o mercado português está razoavelmente bem fornecido, até porque poucos doentes chegam à consulta. Apesar disso, até há poucas semanas era impossível aceder a um dos medicamentos mais famosos e potentes contra o orgulho. A falha foi finalmente colmatada, embora de maneira surpreendente, pois o princípio activo aparece não nas formas habituais de xarope, comprimido ou vaporizador, mas em pastilhas; e estas, em vez de virem nas embalagens comuns, estão dispensadas nas páginas de um livro. Felizmente a bizarria não afecta a eficácia. A Prática da Humildade (Paulus) foi escrito há cerca de 150 anos por Vincenzo--Cioacchino Pecci. A referida raridade do produto no circuito comercial explica-se, em parte, por o seu humilde autor ser mais conhecido como Papa do que como químico farmacêutico.

Os 25 anos do pontificado de Leão XIII - o quarto mais longo da história a seguir aos de São Pedro, do imediato antecessor de Leão, o beato Pio IX, e de São João Paulo II - foram marcados por inúmeros percalços e grandes obras doutrinais e pastorais, como as encíclicas Aeterni Patris (1879) sobre a filosofia cristã e Rerum Novarum (1891) que lançou a doutrina social da Igreja. Humildemente enterrado debaixo dessas maravilhas ficou este livrinho, obra de juventude do então ainda bispo de Perugia. O único propósito do volume é combater o terrível e peganhento muco da soberba, que nunca nos deixa descansados. Fá-lo da única forma eficaz, humildemente em 60 doses individuais.

O inconveniente de usar livro em vez de caixa é a falta do folheto informativo que sempre acompanha os remédios. Assim, os leitores desconhecem a posologia. Após árdua investigação, de que se orgulharia se o tema fosse outro, o DN está em condições de indicar uma possibilidade com resultados comprovados. A título preventivo, duas pastilhas por dia, de manhã e ao deitar; nos casos agudos, uma de seis em seis horas durante uma semana, consultando um especialista na falta de melhoras; esta é também a modalidade de uso permanente nos doentes crónicos.

Thursday, 8 May 2014

Conto de Páscoa - 2014, João César das Neves

O meu amigo fora claro: o seu prédio ficava entre a igreja e a livraria. Cedinho nessa manhã de Páscoa ali estava eu totalmente perdido, apesar das indicações. Ele dissera que não havia nada que enganar, porque a grande cruz no cimo da torre se via à distância. Além disso eu visitara-o há uns anos e esperava reconhecer o local. Apesar disto, não fazia a menor ideia onde me devia dirigir. Estava totalmente perdido.

A razão da desorientação era fácil de explicar. As referências eram evidentes e o sítio não tinha nada que enganar. Só que naquela vila, neste estranho mês de Abril, a Páscoa amanhecera sob uma espessa capa de nevoeiro. À minha frente poderia estar uma igreja, um descampado ou um exército pronto a atacar. Naquela esquina eu mal via a rua, quanto mais a torre, a cruz ou a livraria. Pouco enxergava para lá do meu nariz. Nessas condições, por mais claras que fossem as indicações, não havia maneira de saber onde me dirigir. Em pleno dia só via a brancura vaga e cega do que os ingleses chamam "sopa de ervilhas".

Percebi que o nevoeiro é uma das coisas mais terríveis. A escuridão é rompida por uma luz mínima. Se fosse noite não teria dificuldade em encontrar a igreja, a livraria, o prédio. Bastava um candeeiro para me orientar. Mas no nevoeiro não há luz que me guie. A escuridão, por mais negra que seja, não resiste ao nascer do Sol, que não apenas a rompe, como um fósforo, mas a despedaça e elimina. Mas o sol nada pode com o nevoeiro. Eu sei que o sol está lá em cima. É ele que me permiter ver-me a mim mesmo e ao nevoeiro. Mas o sol fica impotente perante o nevoeiro. Sei que o sol, eventualmente, vencerá o nevoeiro. Daqui a horas, como sempre em Abril, a névoa evapora e o dia será claro e quente. Mas agora não se vê dois metros adiante.

Existe um paralelo na vida espiritual. Vaidade, raiva, cobiça, sensualidade criam terrível escuridão na vida humana, e eliminam a bondade, alegria, paz. Mas no meio da pior escuridão qualquer pequena luz anula as trevas. Um momento bastou para despedaçar a vaidade de Nicodemos, a raiva do bom ladrão, a cobiça de Zaqueu, a sensualidade da adúltera. Mas há algo muito pior que a escuridão do pecado. Existe o nevoeiro da presunção, obstinação, inveja, desespero. Contra eles a luz nada pode. Jesus esteve diante da presunção de Caifás, da obstinação de Herodes, da inveja de Judas, do desespero do mau ladrão, mas eles não viram a luz: "Todo o pecado ou blasfémia será perdoado aos homens, mas a blasfémia contra o Espírito não lhes será perdoada. Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do Homem, há-de ser-lhe perdoado; mas, se falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no futuro" (Mt 12, 31-32).

O nevoeiro é o que mais devo temer. Vivo à sombra da cruz, e toda a minha felicidade dela depende. Sou feliz porque sei que o Senhor do universo, que fez o Céu e a Terra, veio a este mundo por minha causa, e se ofereceu à morte mais horrível para pagar os meus pecados. E depois ficou: ficou na Palavra, no sacrário, quando dois ou três nos reunimos. O Senhor do universo mostra um carinho próximo e pessoal por mim, enviando o seu anjo, que me acompanha e guarda em cada passo. Apesar de saber isso, estou muitas vezes perdido, assustado, desorientado, por causa do nevoeiro. O nevoeiro que me esconde a cruz da igreja. Aquela cruz, que deveria ser o sinal do meu destino, é oculta pelo nevoeiro do meu desespero. O nevoeiro, que me desorienta e até me faz perder a confiança no meu anjo da guarda, é mais forte que a minha fé. O mais forte é o nevoeiro. Que pode ser mais forte que o nevoeiro?

Então ouvi uma voz. Era o meu amigo que me chamava. Imaginou que o nevoeiro me tivesse desorientado e decidiu vir à rua ao meu encontro. Então percebi. O meu anjo tinha-o enviado. E agora sei que há algo mais forte que o nevoeiro: a amizade. A amizade que faz presente a cruz e o anjo da guarda. "Quem vos recebe, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou" (Jo 10, 40).

João César das Neves, 21/4/2014, Diário de Notícias